A tradição da Pesca do Xaréu da Bahia

A pesca do Xaréu é um momento de trabalho, de canseiras, mas também de beleza, de poesia, de música e de cantos. Num período de 05 meses (de Maio a Setembro) os pescadores ficam trabalhando na construção das redes de pesca que chegam a medir mais de 50 metros de cumprimento. A pescaria do Xaréu é especial porque acontece no período (Outubro a Abril) em que os peixes vão em direção ao norte, formando grandes cardumes para a desova, e é exatamente nesse período que os pescadores lançam-se à sua tarefa cumprindo os mesmos trabalhos dos seus antepassados, desde os tempos da colônia até os dias atuais. Esta tradição não morre, mesmo porque dela depende o comércio e a alimentação de centenas de famílias. Todos os anos se repete o mesmo ritual que foi herdado dos tempos passados.

“Iniciava no período de outubro a abril, os xaréus vão para o Norte em grandes cardumes para a desova, procurando climas mais quentes para cumprimento de sua missão procriadora e é nesta época que os pescadores das praias dos subúrbios de Salvador lançam-se à sua tarefa. Na praia do Chega Nego, em Carimbamba e no Saraiva cumprem os mesmos trabalhos dos seus antepassados, trabalhos que vêm dos tempos Colônias, do Império, da Republica até nossos dias. Frederico Edelweiss nos lembra que o nome Chega Nego vem dos gritos dos senhores, chamando os negros escravos para puxarem as redes do xaréu. E esta tradição não morre, mesmo porque dela depende a subsistência de centenas de famílias, todos os anos se repetem com os mesmos cerimoniais, com os mesmos rituais, podemos dizer com que se procedia nos tempos passados”. (Odorico Tavares. In: “Bahia imagem da Terra e do povo.”)

Esta fala transmite a beleza que foi a pesca do xaréu. Narrando com mestria todos os acontecimentos do ritual dos pescadores nas praias do Rio Vermelho à Amaralina. Como também outros brilhantes baianos escreveram e cantaram sobre a pesca do xaréu, na voz vibrante de Dorival Caimmy e as letras boêmia de Jorge Amado. Tudo ficou no folclore que se perdeu na memória dos baianos, em especial dos pescadores. Não sei se foi os xaréus que fugiram da nossa Costa Marítima, em extinção ou se foi os pescadores que não ensinaram aos seus antecedentes à pesca do xaréu da maneira africana.

Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer

Adeus, amor
Por favor não se esqueça de mim
Vou rezar prá ter bom tempo
Meu nêgo
Prá não ter tempo ruim
Vou fazer sua caminha macia
Perfumada de alecrim (Canção da Partida, Dorival Caymmi)

Na realidade, ainda existe pescadores e não mais a festa tão cantada e badalada pelos antepassados. Perdeu a Bahia, perdeu o folclore, tão rico em expressões, para a grandeza da nossa cultura que cada vez mais diminui o espaço da tradição do povo, e que levou centenas de anos cultuando as suas alegrias. A festa do Xaréu era relegada como “festa de nego” sem interesse do governo. Não sabendo as autoridades da época que as “festas de negos” seriam no futuro um dos folclores mais promissores de tradições culturais e financeiros do Estado da Bahia. Um importante veículo de atração turística e que hoje timidamente está se desenvolvendo.

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