Roda na Praça Elis Regina: participe!

Desde 2016, sempre no terceiro domingo de cada mês, o CEACA participa de uma roda de capoeira, na Praça Elis Regina (Butantã).

A roda acontece depois de uma vivência musical, com a participação de quem estiver passando pela praça… Todos podem fazer parte da roda, mesmo que não tenha experiência com a prática da Capoeira.

E a roda, além de ser positiva para a comunidade, agrega grupos locais de capoeira, músicos e cantadores da região. São parceiros do projeto o coletivo SapéCapoeira, Grupo Água de Menino – Mestre Kenura, Espaço Pé de Baraúna e o CEACA Butantã.

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Espaços de educação não formais: com a palavra Mestre Alcides

Instituto de Física organiza o 15º Encontro USP Escola

De: 15 a 19 de janeiro de 2018, das 8 às 17 horas.

Encontro USP – ESCOLA é um programa que oferece gratuitamente cursos de atualização para professores de diversas disciplinas do ensino fundamental e médio. Apresenta temas e abordagens diversificadas, procurando responder a demandas atuais da escola básica. O aprendizado é intensificado pela troca entre as vivências e práticas educacionais de professores e as diferentes propostas desenvolvidas na USP.

O 15º Encontro USP-ESCOLA ocorrerá no período de 15 a 19 de janeiro.

Amanhã, dia 19, às 9:30, Mestre Alcides de Lima falará sobre os espaços de educação não formais.

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Eu e minha ancestralidade: o encontro de saberes

Novo texto publicado na Revista Observatório Itaú Cultural descreve a trajetória do Mestre Alcides de Lima Tserewaptu, em sua vida pessoal e em sua relação com a ancestralidade iniciada no Catupé Cacundê, em continuidade com a capoeira. Fala também da transmissão desses saberes por meio da tradição oral e do diálogo com a educação formal. Essas práticas fortalecem a continuação da ancestralidade ao formar cidadãos capazes de multiplicá-las, fator hoje em dia muito importante para a preservação da nossa cultura. Em defesa da memória e cultura de seu povo, diz o Mestre:

A ancestralidade não é desvinculada do corpo; aliás, este é um elemento muito importante para expressá-la. Podemos, então, considerar que o corpo também é o lugar dela, sendo o principal instrumento de resistência das práticas de tradições orais. Consideramos a possibilidade de levar na memória e em nosso próprio corpo determinado inventário e de tornar a prática como presença, como certa matriz a continuar a tradição.

Por meio da cultura ele realiza dois movimentos em busca dessas ancestralidades: participa de pesquisas para colher relatos e material sobre o Jongo em diversos estados brasileiros e, desde 2000, ensina capoeira e cultura afro-brasileira no Amorim Lima, escola municipal, situada no Butantã (São Paulo), com base em projeto desenvolvido ao longo de várias décadas trabalhando com os valores da “ancestralidade” e da “tradição oral” ; a escola adotou projeto pedagógico inspirado em uma metodologia criada em escolas portuguesas, como a Escola da Ponte. Essa metodologia integra atividades em espaços sem paredes, sem regência de aulas por disciplina específica e com a participação ativa dos estudantes mais avançados em auxílio aos iniciantes. O trabalho do mestre aproxima-se daquele realizado por etnólogos, uma vez que, ao encontrar grupos resilientes, ele registra e insere esses conhecimentos no trabalho feito sobre a cultura e as religiosidades africanas, e ensina a jovens e crianças o valor ético e moral dessa cultura que, pelo jogo, fortalece corpo e mente em oposição ao racismo e em defesa da solidariedade e do amor pela arte que liberta.

Leia o Artigo na íntegra, clicando no link ou na imagem:

ALCIDES DE LIMA TSEREWAPTU. Eu e minha ancestralidade: o encontro de saberes. In: Revista Observatório Itaú Cultural, n. 22 (maio/nov. 2017). São Paulo: Itaú Cultural, 2017, p. 153-163.

Revista Observatório Itaú Cultural, n. 22 (maio/nov. 2017)

 

 

 

“Expresse-se com consciência: faça capoeira” – uma experiência de diálogo entre educação escolar e culturas de tradição oral

Mestre Alcides de Lima Tserewaptu

Ana Carolina Francischette da Costa

 

Neste artigo, o mestre de capoeira Alcides de Lima Tserewaptu e a capoeirista e historiadora Ana Carolina Francischette da Costa relatam a experiência do Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira (Ceaca), que traça um diálogo entre educação escolar e culturas de tradição oral, especialmente as de matriz afro-indígena. Desde 2000, o Ceaca desenvolve o projeto Expresse-se com Consciência: Faça Capoeira, que trabalha elementos da cultura popular brasileira, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, em São Paulo (SP).

O projeto faz parte do currículo e do projeto pedagógico da escola, e é aplicado nas turmas do 1º ano do Ensino Fundamental, além de atender à comunidade, em oficinas semanais realizadas no período noturno, contribuindo para a formação de centenas de crianças, adolescentes e adultos. As ações do grupo visam estabelecer um diálogo entre a cultura popular oral e a cultura formal, tendo como fio condutor a capoeira, o coco, a ciranda, o samba de roda, o samba duro, a puxada de rede da pesca do xaréu, o toré, o cordel e toda musicalidade e oralidade envolvidas nessas manifestações culturais.

Em suas oficinas, o Ceaca busca associar as culturas de matrizes indígenas e africanas, historicamente silenciadas, valorizando sua história, seus conhecimentos e suas manifestações, pilares da formação social de nosso povo. Trazer esses saberes para a instituição escolar possibilita a ressignificação desse espaço. Ao promover o encantamento da aprendizagem, a valorização e a afirmação da diversidade cultural, o grupo fomenta a descolonização do currículo, a construção de relações ético-raciais positivas, o fortalecimento da ancestralidade, a valorização da experiência de vida, o fortalecimento da autoestima de alunos e alunas, de suas famílias, bem como dos mestres de tradição oral.

Em 2005, por meio de um edital do Ministério da Cultura, o grupo tornou-se o Ponto de Cultura Amorim Rima/Ceaca; em 2006 e 2007, o programa foi selecionado pelo projeto Ação Griô Nacional, da tradição oral, e contemplado com o Prêmio Escola Viva, do Ministério da Cultura.

Clique no link para baixar o Arquivo na Íntegra (pdf)http://www.plataformadoletramento.org.br/arquivo_upload/2016-11/20161121112323-expresse-se-com-consciencia-faca-capoeira-artigo-mestre-alcides.pdf

Sobre os autores

Mestre Alcides de Lima Tserewaptu nasceu em 1947, na cidade de Santa Rita da Estrela (MG). É conhecido e respeitado como mestre de capoeira do Ceaca. Atua como coordenador do Ponto de Cultura Amorim Rima/Ceaca e do projeto “Expresse-se com Consciência: Faça Capoeira”. Mestre Alcides também é representante nacional da Comissão de Griôs e Mestres da Tradição Oral da rede Ação Griô Nacional.

Ana Carolina Francischette da Costa é capoeirista integrante do Ceaca, aluna de Mestre Alcides. Professora de História, historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo. Atua em pesquisas sobre comunidades remanescentes de quilombos e outras comunidades tradicionais com base na história oral; além estudar a relação entre tradição oral e educação formal.

 

Fonte: http://www.plataformadoletramento.org.br/acervo-para-aprofundar/1146/expresse-se-com-consciencia-faca-capoeira.html

 

Memórias do CEACA 2016

52º BATIZADO CEACA & 16º na EMEF AMORIM LIMA

 Venha participar do

52º BATIZADO DO CEACA & 16º NA EMEF DES. AMORIM LIMA

                       PONTO DE CULTURA AMORIM RIMA/CEACA

11 DE DEZEMBRO DE 2016

– DOMINGO –

                                                       10:30h

Rua Vicente Peixoto, 50 Vila Indiana, Butantã

Roda de capoeira com professor Pança

Roda de capoeira com professor Rodrigo Pança

Mestres: Alcides L. Tserewaptu, Dorival dos Santos, Durval A. da Silva (Durval do Coco)

Contra Mestre: Paulinho Baraúna

Professores: Rodrigo Pança, Emerson Marinheiro e Valter Souza

 

Lembramos a todos da Comunidade Amorim Lima, que no dia 11 de dezembro, domingo, teremos na nossa escola o BATIZADO DA CAPOEIRA às 10h30 e a II FEIRA DE ARTESANATOS a partir das 11h.

A FEIRA DE ARTESANATOS tem o objetivo de valorizar o trabalho manual e o consumo responsável na nossa escola. É a oportunidade que familiares e amigos da escola tem de compartilhar e comercializar suas produções artesanais, criações artísticas, seus talentos culinários e ainda ajudar a escola!!

Teremos várias barracas de venda de produtos artesanais e comidinhas caseiras. E também a tradicional barraca da APM com camisetas da escola, produtos da horta, antepastos, pães e sucos feitos por pais voluntários.

As inscrições para expositores deverão ser realizadas até o dia 09/12, com a Dani – assistente da direção, mediante o pagamento de uma taxa que será revertida para a APM.

Quem quiser mais informações pode ligar no tel. 3726.1119 e falar diretamente com a Dani.

“Temos o prazer de convidá-los a engrandecer nossa festa. Traga sua energia, seu Axé!”

AIYÁ NINI TO OGUN LO TO

   “A bravura é tão boa quanto a magia”

    Provérbio em Yorubá

Descolonizando nossas almas, debate acadêmico

A proposta deste texto é de um diálogo entre os saberes acadêmicos e os orais; entre os saberes tradicionais e os eruditos; é uma iniciativa para se pensar a descolonização das nossas almas. Foi proposto e escrito de maneira partilhada por um Mestre da tradição oral, Alcides de Lima Tserewaptu, e por uma jovem pesquisadora, Roberta Navas. Buscamos refletir brevemente sobre as condições dos afrodescendentes no contexto brasileiro, com base em uma abordagem epistemológica – que perpassa por perspectivas históricas, educacionais, sociais e culturais.
Nos conhecemos em dezembro de 2012, no interior das vivências do curso de extensão (1), ministrado por mestres da cultura oral, professores e pesquisadores acadêmicos, intitulado Pedagogia Griô e Produção Partilhada do Conhecimento (FFLCH – USP), no qual experimentamos, conhecemos e refletimos sobre propostas e novas abordagens conceituais do universo das culturais orais do Brasil e das possibilidades de uma maior socialização destes saberes no âmbito do ensino em geral. É mais que sabido que a oralidade percorre quase todos os espaços da cultura letrada, ou seja, é base para a transmissão de conhecimento, mas foi continuamente posta à prova e não-legitimada em ambientes institucionais, tais como a Universidade.
Em sociedades orais, “se reconhece a fala não apenas como um meio de comunicação diária, mas também como um meio de preservação da sabedoria dos ancestrais, veneradas no que poderíamos chamar elocuções-chave, isto é, tradição oral”. Neste sentido, o conceito de tradição oral pode ser definido como “de fato, um testemunho transmitido verbalmente de uma geração para outra” (VANSINA, 2010). No continente africano, em determinadas regiões como a do Mali, as figuras que representavam esta transmissão eram os mestres da tradição oral e griots, que podem ser divididos em griots músicos, griots embaixadores, griots  louvadores e genealogistas.
Para nós, o termo griô simboliza uma forte expressão tanto da valorização dos saberes orais oriundos dos recônditos rurais e das cidades do Brasil, quanto da valorização do encontro entre a brasilidade e o mundo diverso que a compôs. Assim, o saber do griô está calcado na tradição oral, aqui definida por um saber que é transmitido de geração em geração, e que reinaugura a cada novo nascimento a reprodução de si própria, e do contato com o outro.
De acordo com Mestre Alcides, os griôs e mestres da tradição oral “são todos aqueles e aquelas que detêm um saber que vem sendo transmitido por várias gerações, secular ou milenar através da oralidade, e se reconhece e é reconhecido/a por sua comunidade”. Ou seja, a construção se materializa por meio das histórias do seu povo no interior da rede de histórias das comunidades. Nesse universo, não podemos enfatizar uma etnia ou uma cultura específicas, pois as suas singularidades só adquiriram importância na diversidade do diálogo com outras culturas.
Por um lado, a sabedoria do griô reconhece que sua existência só foi possível em consequência dos antepassados que a constituíram, por meio de um movimento dinâmico de culturas em contínua formação – que chegaram no Brasil e têm construído seus modos de transmissão pela oralidade e seu caminho de entregar ao universo de sua comunidade.  Por outro, o saber do griô é uma forma de definirmos o que pode ser familiar, e é por meio das histórias dos mestres que os objetos da cultura adquirem vibração. Tambores, redes, tapetes, vasilhas, muzuás, artesanatos etc., adquirem vida graças às histórias (re)contadas pelos Mestres. Este saber oral tem seu grande fundamento na intenção de compartilhar vivências, que podem estar inscritas nos rituais religiosos, nas danças, na capoeira (BAIRON, 2012).
Nas sociedades tradicionais seculares e/ou milenares do continente africano, as culturas não são constituídas sob divisões, ou seja, em partes: elas são um todo. Já em sociedades ocidentais, a constituição cultural se dá de maneira mais desconectada. Acreditamos que no contexto ocidental, isso possa ter ocorrido devido a reelaboração e junção das diferentes culturas. Até um certo ponto, por necessidade; por outro lado, por ser uma estratégia das culturas “dominantes” para um melhor e maior controle, pois no acontecer dessa divisão, ocorre uma disputa para que se legitime qual delas é a mais qualificada, a mais “original”: a verdadeira.
Podemos citar como exemplo, o que aconteceu com duas grandes maltas de capoeira na cidade do Rio de Janeiro no final do século XIX, Guaiamuns e Nagôas. A primeira se dizia originalmente brasileira e defendia o partido republicano, a segunda se dizia originalmente africana e defendia o movimento monarquista.
As culturas tradicionais são construídas, elaboradas, atualizadas e transmitidas por suas comunidades, não tendo dono. Já o que vemos na contemporaneidade é a apropriação das culturas tradicionais por parte dos grupos dominantes, atendendo exatamente a proposta destes grupos, pois desarticulam a força da cultura no seu sentido de resistência social. Isso também se aplica à capoeira, uma vez que na discussão acerca da capoeira angola (mãe) – africana, negra; e a capoeira regional, brasileira, branca é necessário reconhecer que no passado, não existiam essas duas nomenclaturas, era somente capoeira. Se pegarmos a etimologia da palavra capoeira, esta não abriga em seu nome a origem africana, mas sim indígena, kaá-pu‘era, (Tupi) – o mato ralo ou cortado.
O que buscamos com a descolonização das nossas almas? O encontro para o reconhecimento, para o diálogo, para o respeito unido a um orgulho incondicional da nossa formação cultural, que abriga suas diversidades nas raízes indígenas, africanas, europeias. Por outro lado, nesta descolonização deve haver espaço para uma ressignificação da historicidade, na qual se discuta o processo genocida de colonização, que ainda persiste em determinar os valores dos saberes e, por consequência, os valores das nossas vidas.

Alcides de LimaMestre Alcides Tserewaptu – Mestre de capoeira e de tradição oral, licenciado pleno em Educação Física e Pedagogia, com especialização em Educação Física Infantil e Ginástica de Manutenção.

Roberta Navas Battistella Relações Públicas, colaboradora da Escola de Governo e mestranda do programa de pós-graduação interdisciplinar Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pela FFLCH – USP.

Nota

(1) Apresentação audiovisual do curso disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8h_fALXNcWI Notícia publicada no portal UNIVESP sobre o curso disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4_hmdlBKWP8 . Acesso em: 13.07.2015.

Bibliografia

BAIRON, Sérgio. Livre docente da USP fala sobre a Lei Griô. 2012. Disponível em: http://www.acaogrio.org.br/blog/2012/11/13/sergio-bairon-livre-docente-da-usp-fala-sobre-a-lei-grio/ . Acesso em: 14.06.2015.

BAIRON, Sérgio, BATTISTELLA, Roberta N., LAZANEO, Caio. Fundamentos da produção partilhada do conhecimento e o saber do Mestre Griô. Revista Diversitas, n. 3. USP, São Paulo: 2015, pp. 247-265.

CEACA – CENTRO DE ESTUDOS E APLICAÇÃO DA CAPOEIRA. Capoeira & Educação: coletânea de estudos e práticas. / Mestre Alcides de Lima (Org.). São Paulo: CEACA, 2013.

COSTA, A. C. F. ; LIMA, M. A. . Entrevista com Mestre Alcides de Lima. Revista Diversitas, v. 2, p. 385-396, 2014.

HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO, J. (coord.) Metodologia e Pré-História da África, História Geral da África. Brasília: Unesco, 2010. v.1. p.193.

LIMA, Alcides D. Capoeira & Educação: Coletânea de Estudos e Práticas. São Paulo:  CEACA, 2013.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Negregada Instituição: os capoeiras na Corte Imperial 1808-1850,  Unicamp, 1993.

VANSINA, Jan. A tradição oral e sua metodologia. In: KI-ZERBO, J.(coord.) Metodologia e Pré-História da África, História Geral da África. Brasília: UNESCO, 2010.

Fonte: http://www.unesp.br/portal#!/debate-academico/descolonizando-nossas-almas/, publicado em 15/07/2015, site UNESP.