Batizado 2016.

 

Para não esquecer…

Daquilo que vi:

Triscado no arame

Batido no topo da cabeça

Tomado pelo hálito

Incorporado pela poeira.

#capoeiraresisteciaancestral

Mestre Alcides fala da relação entre Capoeira e Candomblé

Uma roda de conversa com Mestre Alcides de Lima é sempre um momento precioso para extrair partículas de sabedoria sobre a vida, o imaginário e os valores simbólicos que alimentam a cultura de tradição oral. O sagrado está em toda a parte!

Neste breve vídeo que disponibilizamos, Mestre Alcides de Lima fala das relações transversais entre a Capoeira e o Candomblé no Brasil, destacando como a música e os toques (pontos) migram de um lugar para outro, de modo que nem nos damos conta do quanto somos tributários da rica cultura afro-brasileira que herdamos de nossos ancestrais.

A música “Marinheiro Só” já foi interpretada por muita gente: Clementina de Jesus, Clara Nunes, Marisa Monte, Maria Bethânia, Caetano Veloso entre outros; além de “ponto de Candomblé”, é uma das canções mais populares entre os praticantes da Capoeira, presente também em festas infantis. Pertence ao patrimônio das culturas de tradição oral.

 

Marinheiro Só

Eu não sou daqui, Marinheiro só

Eu não tenho amor, Marinheiro só

Eu sou da Bahia, Marinheiro só

De São Salvador, Marinheiro só

Lá vem, lá vem, Marinheiro só

Como ele vem faceiro, Marinheiro só

Todo de branco, Marinheiro só

Com seu bonezinho, Marinheiro só

Ô, marinheiro, marinheiro, Marinheiro só

Ô, quem te ensinou a nadar, Marinheiro só

Ou foi o tombo do navio, Marinheiro só

Ou foi o balanço do mar, Marinheiro só

 

Os cuidados que devemos considerar quando se propõe a retirada da capoeira da matriz africana.

Nas andanças que o Ponto de Cultura promove temos a feliz oportunidade de conhecer e conversar com diversas pessoas dos mais variados pontos de vista, o que engrandece o nosso conhecimento e nos faz pensar nos conflitos surgidos entre diferentes cabeças. Num destes encontros, no caso o da Teia em Fortaleza, CE, abril de 2010, surgiu uma polêmica entre os grupos de discussão: a de se formar um grupo de trabalho (GT) de capoeira, desvinculando a mesma do GT de Matriz Africana na qual atualmente está inserida, assim como outras manifestações, o jongo, os terreiros etc.

Pensamos que tal iniciativa deva ser extremamente cautelosa, pois se consideramos a capoeira em especial, abrimos precedentes para um GT a cada uma das manifestações existentes dentro do GT Matriz Africana o que desarticularia o grupo e os objetivos dos GTs, e pensando além, o que não impediria de no futuro termos outros GTs dentro destas manifestações tais como GT berimbau, GT toques e afins, o que a nosso ver, além da desarticulação, os próprios tendem a não se reconhecerem mais como uma entidade única.

Quando consideramos aparentemente tão diversas manifestações dentro da Matriz Africana reconhecemos que elas têm uma ancestralidade em comum, preceitos e objetivos parecidos, o que nos faz pensar em uma irmandade.

Então, se levarmos a capoeira a um grupo diferenciado, atrevemos a apontar uma tendência à esportivização, eminência provável aos jogos olímpicos, com a organização de associações, federações estaduais, confederação nacional e internacional, órgãos que existem; porém não há hegemônica aderência. Justamente em razão de muitos mestres não enfatizarem a capoeira como esporte, mas como cultura. Ora, se assim ocorresse, teríamos na capoeira uma visibilidade mundial diferente, com personagens escolhidos (atletas), marketing esportivos, patrocínios e teríamos no final não mais uma manifestação cultural, mas sim um produto.

Efetivamente, não é isso o que se propõem os mestres e participantes dos pontos de cultura e as discussões que ocorrem nos encontros; são anos de luta para considerarem não só a capoeira, mas as manifestações populares como representantes e significativas do povo brasileiro nas mais diversas instâncias.

Sendo ela Patrimônio Cultural Imaterial, devido as suas especificidades no modo de fazer e transmitir que a princípio podemos dizer de uma luta de defesa, afirmação de identidade de um povo, representando a “rebeldia” de um sistema opressor que não oferecia e tão pouco oferece favorecimentos sociais. Já que desde sempre é dada alguma importância às manifestações populares pelo sistema apenas quando estas se prestam a alguma utilidade para ele.

Vamos pensar por que a capoeira está inserida na matriz africana:

Basta pensar na origem da capoeira, mesmo sendo ela uma invenção nacional, ob­servemos e relacionemos os elementos que a compõem: o berimbau, a oralidade, as cantigas em louvações, típicas de povos africanos como os Mali desde o século IX, o respeito à palavra dita que não é esquecida, a hierarquia do mestre ao aprendiz são fundamentos recorrentes da capoeira. Retirá-la da matriz africana seria como extirpar um pedaço do DNA da capoeira, deixando assim de ser a capoeira, apagando a sua ancestralidade. Aqui, como na capoeira, não existe disputa de um contra o outro, mas um com o outro; no en­riquecer humano, o troféu não é metal precioso, mas desenvolvimento humano; levanta­mos aspectos que consideramos importantes para justificá-la na matriz africana.

Então no nosso entendimento não existe um meio de desvincular, esquecer todo um passado que é recontado e marcado no corpo do capoeirista como foi dito acima; para tal teríamos que reinventar outra luta com outras pessoas, com outros objetivos, novas músi­cas, novos toques, e outra forma de entender o mundo.

Quando fiz graduação do curso de Educação Física no início dos anos 1980, fui con­vidado a participar de um seminário organizado por alguns professores da mesma, e ha­via um módulo cujo tema era: “A importância dos movimentos da capoeira na formação física do desportista”; na época, já capoeirista, fui advertido pelo professor organizador do seminário que o mais importante que a capoeira tinha para esse seminário seria a parte de movimentos físicos, a plástica, a ginga, a dança, movimentos acrobáticos, e de forma al­guma, sua história e sua cultura, pensamento existente até hoje em alguns grupos ligados à educação física, ou por ingenuidade ou por proteção de mercado.

Como a capoeira não se define com uma, duas ou três palavras ou frases, ela está na dança, no jogo e na luta, pode ser inserida na literatura, na história, na geografia, da matemática às artes, tem um grande mercado de trabalho na área da educação, sendo argumento para profissionais da área da educação com formação superior, mas também não podemos esquecer-nos dos nossos mestres do saber popular que há muito vêm dedicando e transmitindo seus conhecimentos em todos os campos do saber; temos aí esse reconhecimento pelo MinC através da Ação Griô da Tradição Oral, um edital muito concorrido e agora com o Projeto de Lei e já lançado em audiência pública em várias cidades do Brasil que buscará dar maior reconhecimento aos mestres.

Capoeira brasileira, dança-luta que foi criada e desenvolvida pelos negros escravizados, ligada diretamente à vida socioeconômica, histórica e política do país. Expressão corporal de uma injustiça social cantada e contada no tambor e nas vozes dos mestres, musicalidade que se insere de forma peculiar na história do povo brasileiro, desde o início do século XVII até a atualidade, um mau hábito que cresceu e fecundou em favor da vida.

Seus movimentos dão flexibilidade tanto muscular como articular, tonificam os músculos, sua aprendizagem baseada na oralidade e observação torna a mente atenta aos detalhes, insistente em aprimorar o jogo e superar dificuldades, as conquistas são percebidas em cada roda de capoeira, concebendo um novo olhar às potencialidades.

Hoje, a capoeira pertence a outro contexto, inserida nas artes em geral como a dança, o cinema, a música, as artes plásticas e também em todos os níveis escolares, desde objeto de estudo a conteúdo curricular, fora do país é um identificador cultural do Brasil.

Não restringir a prática a somente uma luta corporal, mas considerar que a sua existên­cia está vinculada a quase toda história do povo brasileiro é respeitar os homens, mulheres e crianças que fazem esta história, a cultura do Brasil.

 

Ms. Alcides e Kati

Alcides de Lima e Katiane Mattge

Fonte: CEACA – CENTRO DE ESTUDOS E APLICAÇÃO DA CAPOEIRA. Capoeira & Educação: coletânea de estudos e práticas. / Mestre Alcides de Lima (Org.). São Paulo: CEACA, 2013, p. 37 e 38. ISBN: 978-85-66647-00-6. Baixe Livro Completo:

https://drive.google.com/file/d/0B8JVCyw9taFscE1mVWphbFJaNlE/edit?usp=sharing

Participação dos mestres e professores do CEACA na I Formação Continuada de Capoeira 2016 -CEPEUSP

formaçãoceupeusp2016

formaçãoceupeusp2016

 

A  convite do generoso professor de capoeira Womualy e do CEPEUSP os mestres e professores do CEACA participam da I Formação Continuada de Capoeira 2016.

Ajudando a construir uma capoeira forte e amiga.

Só é possível com afetividade e humildade daqueles que a transmitem.

Parabéns a todos os capoeiristas presentes

.

AXÈ.

Toré por Mestre Alcides de Lima. “Eu aprendi…agora vou ensinar.”

                                                                                                                                                

 

                                                                                                                                                “Resistência Ancestral”

Campanha seja amigo/a do CEACA

São muitos

devagar, devagarinho, já foi e já voltou

aprendeu, pulou, cantou

agora volta …

“Tudo o que Deus toca vira ouro”

Capoeira Resistência Ancestral

Acesse o link para doações via PagSeguro: https://pag.ae/bcX366 

 

Porque as mulheres fazem Capoeira…

 

Berimbau_1

Berimbau instrumento das mulheres Bantu. Imagem retirada do site http://www.cress-ce.org.br, 29/05/2016.

Volta e meia as pessoas nos questionam sobre a nossa participação na capoeira. Não existe uma resposta padrão para tal pergunta, mas podemos levantar alguns motivos esclarecedores às ideias primeiras de algumas pessoas.

Não fazemos capoeira para bater em algum abusado na rua, pois por mais forte que possamos ficar através dela, dificilmente seremos mais fortes fisicamente que um homem.

Não fazemos capoeira para tomar o lugar dos homens na roda, pois a roda como elemento circular tem espaço para todos nos momentos certos e entendemos isso, nem que o nosso momento demore gerações.

Não fazemos capoeira para arrumar maridos, mas para encontrar parceiros de luta.

Não fazemos capoeira para ficar com um corpo desejável, mas para ficar com a alma limpa.

Não fazemos capoeira para “causar”, mas para nos encontrar.

E o mais importante…fazemos capoeira porque reconhecemos nesta luta ancestral, A NOSSA LUTA,  por respeito, legitimidade, dignidade, para ler a malícia daqueles que querem nos oprimir, antes mesmo de nos ofenderem com as suas palavras ou ações, porque ela nos dá força e exemplos que mesmo sendo difícil é possível de encontrar meios de sobrevivermos e lutar pela liberdade.

Capoeira resistência ancestral.

K.M.

 

 

Escola transformadora e arte-educação são temas de formação na EMEF Amorim Lima

Localizada na região do Butantã, em São Paulo, a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Desembargador Amorim Lima possui um Plano Político Pedagógico diferente das demais escolas. Na formação teórica do dia 04 de maio, os/as jovens monitores/as do Programa Jovem Monitor/a Cultural (PJMC) não apenas conheceram a experiência educativa do local, como também vivenciaram algumas práticas de arte-educação baseadas nas culturas tradicional e popular.
No período da manhã, os/as jovens participaram de vivências de coco de roda, samba de roda, maculelê, ciranda e outras manifestações culturais ministradas pelos mestres Alcides de Lima, Durval do Coco e o professor Rodrigo Pança, integrantes do Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira (CEACA).
Existente desde 1988, o CEACA é uma associação sem fins lucrativos que tem como missão preservar e promover as culturas tradicionais, em especial a capoeira. Desde abril de 2000 desenvolve oficinas junto aos/as alunos/as da EMEF Desembargador Amorim Lima. No local, atua como Ponto de Cultura “Amorim Rima/CEACA” desde 2005.
“[A formação do dia] foi mais uma vivência pra vocês [jovens] sentirem no corpo como se dá essa relação da cultura tradicional com a escola”, explicou Rodrigo Pança antes das atividades começarem.
Rodrigo também conversou com os/as monitores/as sobre sua trajetória na capoeira. Oriundo da Favela do São Remo, ainda criança começou participar das oficinas de capoeira no projeto “Minha História” ministradas pelos mestres Alcides e Dorival. “A capoeira e o trabalho que os mestres [Alcides e Dorival] desenvolvem, e que eu de certa forma dou continuidade, transformou a minha vida no sentido de sair daquele mundo da minha comunidade, porque se você não se abrir, você acha que o mundo é aquilo que se vive lá”.
A escola transformadora
O Plano Político Pedagógico da Amorim Lima foi inspirado na Escola da Ponte, em Portugal, onde os/as alunos não são orientados por professores/as, mas por educadores/as tutores/as, que avaliam o progresso do/a estudante e tiram suas dúvidas em caso de necessidade. Os estudos são interdisciplinares e norteados por roteiros de pesquisa contendo objetivos, desenvolvidos a partir de livros didáticos sugeridos pela Secretaria Municipal de Educação. O Plano Político Pedagógico da escola foi aprovado em 2005 em uma reunião do Conselho de Escola.
Todo o Plano surgiu a partir da participação entre a escola e familiares dos/as alunos/as que, percebendo a dinâmica do local, pensaram em um novo modelo pedagógico e também de espaço – grades foram retiradas do pátio e dois grandes grupos de salas de aula tiveram suas paredes literalmente derrubadas.
“Acredito que a [EMEF] Amorim só pôde chegar nesse projeto de quebrar parede e conseguir chegar ao patamar em que está hoje por causa desse percurso que fomos construindo junto com a comunidade, fortalecendo muito mais a comunidade do que a própria rede de professores ou de educação, porque são os pais, hoje, que seguram esse projeto, de certa forma”, comenta Ana Elisa Siqueira, diretora que deu início às transformações físicas e pedagógicas na escola.
“A cultura permeia todo o trabalho pedagógico da escola”, explica. A proposta da escola, segundo a diretora, foi embasada em um trabalho de cultura popular. Através de uma parceria com uma fundação, foi dado início a um projeto onde os/as estudantes participavam de oficinas de cultura brasileira, vivenciando práticas de capoeira, dança e música. No entanto, não foi fácil possibilitar o encontro da escola com a cultura.
“Houve dificuldades quando trouxemos esse trabalho de cultura para dentro da escola, tanto para a comunidade, que muitas vezes não via isso como algo importante a ser estudado e trabalhado no horário pedagógico, como para os professores que, de certa forma, não encaravam essa linguagem como importante pro seu próprio trabalho”, conta.
Por fim, os/as jovens monitores/as puderam conversar sobre como os/as estudantes se organizam, a formação dos/as professores, os desafios de manter o Plano Político Pedagógico diferenciado, a relação da escola com a gestão pública, entre outros assuntos.
“A coisa mais importante do fundamento do ser humano é nos constituirmos como seres culturais. Sentimos que as crianças podem exercitar, do ponto de vista da cultura e do corpo, uma condição muito mais ampla de aprendizagem”, finaliza.

Fonte: http://www.polis.org.br/convivenciaepaz/?p=3451

Assista ao vídeo: