30 ANOS: O CEACA SOMOS TODOS NÓS!

O Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira (CEACA) é uma associação sem fins lucrativos que promove a Capoeira como um bem que deve ser compartilhado e investigado. Tem como missão preservar e promover as culturas de tradição oral, em especial a capoeira, compartilhando dos seus benefícios sociais para a formação de seres humanos integrados com a sua realidade. Foi fundada em 20 de abril de 1988, registrada com CNPJ 06.116.648/0001-04 (02.02.2004), sediada à época na sala 51, bloco “B” do CRUSP, onde já estávamos desde início dos anos de 1990.

Mas, essa história não começou aí! A semente foi lançada no início dos anos de 1970 com o Mestre Eli Pimenta (aluno da FFLCH, Ciências Sociais) e Mestre Freguesia, baiano de Itabuna, ambos formados pelo Grupo Cordão de Ouro do Mestre Suassuna. O curso era frequentado por alunos, professores e funcionários da USP, na piscina do CRUSP, chamada “Aquário”, onde Mestre Alcides iniciou sua volta ao mundo da capoeira.

Em 1988, os mestres Alcides de Lima Tserewaptu e Dorival dos Santos elaboraram o Estatuto Social do CEACA e o projeto denominado “Expresse-se com Consciência: Faça Capoeira”, com o objetivo de trabalhar a capoeira em seus aspectos culturais, desenvolvendo no indivíduo aptidões para as artes em geral, interagindo com múltiplos saberes: cultura, ancestralidade, teatro, música, danças, literatura oral e provocando o diálogo entre as culturas formal e oral em todos os espaços.

A formação institucional do CEACA conta com: presidente, vice-presidente, tesoureiro, secretário, diretor e associados. As oficinas de capoeira do CEACA são ministradas pelos seus membros já habilitados e/ou em formação, Mestres, Contra Mestres, Professores e Estagiários (que já possuem graduação de acordo com a função).

A capoeira e a cultura produzem transformação na vida de cada criança, jovem e adulto: o que fica visível no corpo, nos olhos, na maneira de se colocar individual e coletivamente. Alguns encontram na capoeira um caminho de vida e se tornam professores também. Desde a sua fundação, o CEACA já formou centenas de crianças, jovens e adultos.

A partir de abril de 2000, as atividades do CEACA passaram a se concentrar majoritariamente na EMEF Des. Amorim Lima, com o Projeto Culturas Populares na escola que envolvia crianças do 1° ao 8° anos extraclasse e recebia fomento do Crer pra Ver, Fundação Abrinq, Natura e Camargo Corrêa. A partir de 2005, o CEACA tomou grande impulso sendo selecionado pelo Edital Pontos do MinC com duração de três anos; em 2009, novamente fomos selecionados pelo mesmo Edital com duração até 2013, graças ao qual pudemos trazer a capoeira, as Culturas Populares e Tradicionais para o currículo escolar, com Mestre Durval do Coco, as cirandas, tores, coco de roda, aboio e repentes. Esses editais somaram no período R$ 360.000,00 em investimento para as oficinas, aquisição de kit multimídia, de materiais didáticos, instrumentos da capoeira etc.

Reconhecido no Brasil e no exterior, e tantas vezes premiado, o CEACA hoje infelizmente não dispõe mais de verbas, enquanto o trabalho com as crianças e adolescentes não pode ser descontinuado, precisa de sustentação segura e consistente para seguir em frente. Com o término dos programas do MinC em 2013, reduzimos a carga horária na escola a fim de poder dar continuidade aos trabalhos, que são hoje: os 1° anos da manhã e tarde com 2 professores em cada período, e mais 2 grupos extraclasse, com mais 2 mestres, professores e estagiários. Todos esses trabalhos estão sendo realizados voluntariamente pelos membros do CEACA!

20 de Abril de 2018

Alcides de Lima Tserewaptu (Presidente)

Edison Luís dos Santos (Colaborador)

Conheça mais, visitando as páginas do Ceaca – https://capoeiraceaca.wordpress.com/

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Experiência educativa do Ceaca

Localizada na região do Butantã, em São Paulo, a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Desembargador Amorim Lima possui um Plano Político Pedagógico diferente das demais escolas. Na formação teórica do dia 04 de maio de 2015, os/as jovens monitores/as do Programa Jovem Monitor/a Cultural (PJMC) não apenas conheceram a experiência educativa do local, como também vivenciaram algumas práticas de arte-educação baseadas nas culturas tradicional e popular.

No período da manhã, os/as jovens participaram de vivências de coco de roda, samba de roda, maculelê, ciranda e outras manifestações culturais ministradas pelos mestres Alcides de Lima, Durval do Coco e o professor Rodrigo Pança, integrantes do Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira (CEACA).

Existente desde 1988, o CEACA é uma associação sem fins lucrativos que tem como missão preservar e promover as culturas tradicionais, em especial a capoeira. Desde abril de 2000 desenvolve oficinas junto aos/as alunos/as da EMEF Desembargador Amorim Lima. No local, atua como Ponto de Cultura “Amorim Rima/CEACA” desde 2005.

[A formação do dia] foi mais uma vivência pra vocês [jovens] sentirem no corpo como se dá essa relação da cultura tradicional com a escola”, explicou Rodrigo Pança antes das atividades começarem.

Rodrigo também conversou com os/as monitores/as sobre sua trajetória na capoeira. Oriundo da Favela do São Remo, ainda criança começou participar das oficinas de capoeira no projeto “Minha História” ministradas pelos mestres Alcides e Dorival. “A capoeira e o trabalho que os mestres [Alcides e Dorival] desenvolvem, e que eu de certa forma dou continuidade, transformou a minha vida no sentido de sair daquele mundo da minha comunidade, porque se você não se abrir, você acha que o mundo é aquilo que se vive lá”.

 

Lei Griô: esclarecimentos

Em Julho de 2009, a “Chama da Lei Griô” foi lançada em Salvador pela Rede Ação Griô e na Comissão nacional dos Griôs e Mestres durante o encontro Estadual de Pontos de Cultura da Bahia; foi realizada uma caminhada da Chama da Lei Griô em Campinas (na Nina Griô), São Paulo, em Brasília e em diversos cantos do Brasil. A Chama da Lei Griô foi acesa em diversas conferências municipais, territoriais e estaduais do Brasil que elegeram a minuta da Lei Griô como prioridade municipal e estadual. E em março de 2010, em Brasília-DF, a minuta da Lei Griô foi eleita prioridade da Política Nacional  na Conferência Nacional de Cultura que envolveu mais de 2000 pessoas em todo o Brasil.

Assista ao vídeo do Mestre Griô Alcides Tserewaptu, no qual ele explica a diferenças entre Lei Griô, Pedagogia Griô e Ação Griô.

Mestre Durval do Coco e a Pedagogia Griô: memória

Em 2013, o Curso Pedagogia Griô e Produção Partilhada do Conhecimento (USP) recebeu o Mestre Durval do CEACA. Após uma bela preparação e reverências aos Mestres da Cultura Oral, realizada por Rodrigo Pança, Márcio Caires e Lillian Pacheco, os participantes compreenderam que a cultura oral somente pode ser apreendida por meio de vivências orientadas pelos próprios Mestres Griôs. Fica aqui também nosso reconhecimento em relação à intermediação que a Pedagogia Griô realiza, como uma forma de vida que integra a tradição oral, a formação cidadã e a educação! A Pedagogia Griô foi desenvolvida pelo grupo “Grãos de Luz e Griô” (Lillian Pacheco e Marcio Caires), com a participação de Everaldo Cândido e Neander Heringer (Nina Griô), Henri Durand (Acervo das Tradições) e Mestre Alcides Lima (CEACA) e de todos os presentes!

Assista o Audiovisual publicado em 3 de abril de 2013 pelo CEDIPP – DIVERSITAS FFLCH – ECA / USP

 

 

Eu e minha ancestralidade: o encontro de saberes

Novo texto publicado na Revista Observatório Itaú Cultural descreve a trajetória do Mestre Alcides de Lima Tserewaptu, em sua vida pessoal e em sua relação com a ancestralidade iniciada no Catupé Cacundê, em continuidade com a capoeira. Fala também da transmissão desses saberes por meio da tradição oral e do diálogo com a educação formal. Essas práticas fortalecem a continuação da ancestralidade ao formar cidadãos capazes de multiplicá-las, fator hoje em dia muito importante para a preservação da nossa cultura. Em defesa da memória e cultura de seu povo, diz o Mestre:

A ancestralidade não é desvinculada do corpo; aliás, este é um elemento muito importante para expressá-la. Podemos, então, considerar que o corpo também é o lugar dela, sendo o principal instrumento de resistência das práticas de tradições orais. Consideramos a possibilidade de levar na memória e em nosso próprio corpo determinado inventário e de tornar a prática como presença, como certa matriz a continuar a tradição.

Por meio da cultura ele realiza dois movimentos em busca dessas ancestralidades: participa de pesquisas para colher relatos e material sobre o Jongo em diversos estados brasileiros e, desde 2000, ensina capoeira e cultura afro-brasileira no Amorim Lima, escola municipal, situada no Butantã (São Paulo), com base em projeto desenvolvido ao longo de várias décadas trabalhando com os valores da “ancestralidade” e da “tradição oral” ; a escola adotou projeto pedagógico inspirado em uma metodologia criada em escolas portuguesas, como a Escola da Ponte. Essa metodologia integra atividades em espaços sem paredes, sem regência de aulas por disciplina específica e com a participação ativa dos estudantes mais avançados em auxílio aos iniciantes. O trabalho do mestre aproxima-se daquele realizado por etnólogos, uma vez que, ao encontrar grupos resilientes, ele registra e insere esses conhecimentos no trabalho feito sobre a cultura e as religiosidades africanas, e ensina a jovens e crianças o valor ético e moral dessa cultura que, pelo jogo, fortalece corpo e mente em oposição ao racismo e em defesa da solidariedade e do amor pela arte que liberta.

Leia o Artigo na íntegra, clicando no link ou na imagem:

ALCIDES DE LIMA TSEREWAPTU. Eu e minha ancestralidade: o encontro de saberes. In: Revista Observatório Itaú Cultural, n. 22 (maio/nov. 2017). São Paulo: Itaú Cultural, 2017, p. 153-163.

Revista Observatório Itaú Cultural, n. 22 (maio/nov. 2017)

 

 

 

E dá-lhe coco…

CONAN2016 AMORIM LIMA;CEACA 096

Mestre Durval do Coco

Assista o vídeo, clique no link Mestre Durval do Coco

Mestre Durval do Coco ensina como se tira coco ligeiro na escola EMEF Des Amorim Lima, com o CEACA.

É muito axé !!!

 

Falar de Cultura Viva é falar do inefável

“Quando falamos de Cultura Viva falamos do inefável” (Célio Turino)

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Fonte: http://iberculturaviva.org/; Fotos: Georgina García/Puntos de Cultura

“Inefável” é aquilo que não se pode explicar com palavras. O que não se pode nomear ou descrever em razão de sua natureza, força, beleza. Foi este o adjetivo usado pelo historiador Célio Turino para definir o que unia todos os que estavam no 3º Encontro Nacional de Pontos de Cultura da Argentina e o 1º Encontro de Redes IberCultura Viva, realizados em programação conjunta de 30 de novembro a 2 de dezembro no Centro Cultural San Martín, em Buenos Aires (Argentina).

“Quando falamos de Cultura Viva falamos do inefável”, afirmou Turino na conferência magistral do evento. “Assim como a companheira de Belize nos diz que pode sentir a dor e a alegria que há em um Ponto de Cultura do Brasil ou da Argentina, ainda que não os conheça, eu também posso sentir a festa em Belize sem nunca ter ido lá. E é assim em todo lugar, com nós todos. É assim porque o inefável nos une.” Um dos criadores e principais impulsores do programa Cultura Viva – lançado no Brasil em 2004 e transformado em política de Estado em 2014 –, Turino começou sua conferência no encontro falando da história da América. Um lugar para onde todos vieram, de uma forma ou de outra, atravessando o Estreito de Bering, ou pela Polinésia, ou cruzando o Oceano Atlântico.

“Este continente que cruza o planeta de norte a sul tem esta característica, as humanidades afluem para cá”, comentou. “Depois, com o processo de colonização, nos fundimos com a gente que veio, os imigrantes, os africanos. E assim nos fizemos, e assim fomos e vamos nos mesclando. Este é um continente mestiço, com uma riqueza fabulosa.”

Ao comparar a cultura a uma floresta – quanto mais diversa, mais bela –, Turino chamou a atenção para a importância da complementaridade, das fusões, dos encontros. “A cultura é o resultado da fusão entre tempo e espaço”, disse. “Quando compartilhamos nossas tradições, nossas histórias, nossa memória, vamos produzindo a cultura. E quando esta cultura é compartilhada em um território, ela se solidifica. E assim nos identificamos. É o inefável, é isso que nos define e que garante que a cultura se transporte.”

Espaço e Território

Daí a ideia dos Pontos de Cultura, de sedimentar as ações no território e perceber o espaço do território como um conjunto de tradições e experiências. “Não é uma única coisa. Não podemos nos prender à ideia fundamentalista de que há uma única verdade, e sim muitas contribuições”. Ou seja, um conhecimento tradicional pode dividir o espaço com um conhecimento de vanguarda, uma experiência estética, tecnológica, e nesta fusão também está sua riqueza, sua beleza.

Turino citou como exemplos as centenas de encontros feitos no começo do programa Cultura Viva no Brasil, em que jovens fazem oficinas de software livre, de edição de vídeo, em favelas, aldeias indígenas e áreas rurais, e tanto ensinavam como aprendiam. Também recordou uma viagem que fez ao Peru e se espantou com a diversidade do milho. “Só conhecia o amarelo, e lá vi milho preto, vermelho… Mostrava as fotos para os amigos e me perguntavam: ‘É transgênico?’ Não, é inteligência coletiva, traduzida nos Andes por milhares de anos e oferecida gratuitamente às pessoas. Não tem dono.”

Urgência histórica

E que diriam os povos ancestrais, os que ajudaram a construir esta floresta diversa que é a gente da América Latina, se soubessem do conceito de desenvolvimento das sociedades ocidentais? “Quando falamos de Cultura Viva estamos falando de vida, de convivência. Claro que crescemos, que desenvolvemos e que há um ciclo em que tudo se fenece e se constrói outra coisa. O conceito de desenvolvimento das sociedades ocidentais, entretanto, é que se pode acumular, acumular, extrair, extrair… E o planeta é finito. Não há lógica em viver em um sistema que tem como base a acumulação infinita. O conceito de bem viver é o contrário disso”.

Como historiador, Célio Turino se acostumou a trabalhar com a ideia de “paciência histórica”, porque os processos são longos. “Agora temos que trabalhar com outro conceito, o de urgência histórica, porque não há mais longo prazo para a humanidade. Em 20, 30 anos, estaremos vivendo um colapso”, afirmou. “Somos ladrões de nossos filhos e netos e dos netos de nossos netos. Temos que nos reconhecer assim se queremos mudar e roubar menos dos outros”.

Cultura do Encontro

Para falar da importância dos encontros, e de como os encontros podem promover mudanças, Turino pediu aos organizadores do evento uma escada. Precisava de uma durante a conferência para mostrar como a imagem criada para o 3º Encontro Nacional que aparecia no palco (vários círculos juntos, formando o número 3) tinha que ver com a ideia dos Pontos de Cultura.

“Existem pontos fechados, abertos, pequenos, grandes, com mais ou menos cor, formando esta imagem. Cada um, de uma maneira diferente, produz este processo de interseções, permitindo que um círculo se conecte com outro. Ou seja, este círculo poderia ter uma forma diferente do outro. No entanto, quando se conectam eles mudam e formam coisas, como esta imagem. Acredito que aí está a beleza dos Pontos de Cultura e da Cultura Viva”, comparou, de cima da escada.

Para o historiador, mais que uma intersecção entre Estado e sociedade civil, Cultura Viva tem a ver com “colocar o reino da vida em equilíbrio com o império dos sistemas (as leis do mercado, do Estado, das igrejas)”. Autonomia, protagonismo e empoderamento, segundo ele, seriam palavras-chave para começar as mudanças.

“Temos que construir um processo de diálogo”, ressaltou. “Se as pessoas não têm a oportunidade de falar por sua própria voz, não há diálogo. Elas têm que se sentir empoderadas para falar com o Estado. Por outro lado, o Estado tem que aprender a falar com as pessoas – inclusive porque, como dizia meu avô, o Estado tem que servir ao povo, não servir-se do povo. É necessário que um se disponha a escutar o outro, porque se me fecho na minha verdade não consigo estabelecer a cultura do encontro”.
Fonte: http://iberculturaviva.org/celio-turino-quando-falamos-de-cultura-viva-falamos-do-inefavel/