Puxada de rede: um ritual de beleza

A Puxada de Rede surgiu após o período da escravidão, quando os negros não acharam oportunidades de se encaixar no mercado de trabalho e procuram seu sustento no mar. E assim uma parte destes negros se deslocou para as entranhas dos mangues, na região de Santo Amaro – BA. Esta foi umas das primeiras cidades onde viram negros trabalhando. A puxada da rede do xaréu (um tipo de peixe) é uma das heranças mais interessantes dos tempos da escravidão, sobretudo pelo aspecto folclórico, que transformou um labor fatigante em uma das mais agradáveis atrações das praias baianas. Tendo em vista o desenvolvimento tecnológico da pesca e outros fatores relacionados com o meio ambiente, essa atividade artesanal encontra-se em decadência desde a década de 1970, sendo exercida, esporadicamente, somente por algumas das pequenas colônias de pescadores existentes ao longo da orla marítima da Bahia; e, além disso, sem o encanto e a magia dos tempos passados.

Nos meses decorrentes entre outubro e abril, esses peixes procuravam as águas quentes do litoral nordestino a fim de procriarem. Então era a época certa para lançarem a rede ao mar. Era uma atividade que exigia um esforço tremendo e um número muito grande de homens para a tarefa. Os pescadores iam para o mar de madrugada ou às vezes até à noite, para lançar a enorme rede, para só então de manhã puxarem. A puxada da rede era acompanhada de cânticos na maioria em ritmo triste que representavam a dificuldade da vida daqueles que tiram o seu sustento do mar.

Além dos cânticos, os atabaques e as batidas sincronizadas dos pés davam o ritmo para que os homens não desanimassem e continuassem a puxar a enorme rede, o que dava um ar de ritual e beleza àquela atividade. Quando enfim terminavam de puxar a rede, eram entoados cânticos em agradecimento à pescaria e o peixe era partilhado entre os pescadores e começava o festejo em comemoração.

Este vídeo foi produzido e compartilhado por Jorge, do grupo Fonte do Gravatá.

Efetivamente embora ainda seja praticada, em escala muito reduzida, perdeu o seu antigo ritual e efeito sem os cânticos e marcação de pés que tanto a caracterizava e a embelezava no passado. A pesca do xaréu se fazia principalmente nas águas das praias, mas hoje infelizmente está praticamente extinta.

O Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira (CEACA) valoriza esta tradição popular e desenvolve pesquisas que visam ao reconhecimento e divulgação desta rica manifestação cultural.

Fonte: https://abadarodos.wordpress.com

Documentários sobre o samba e sambistas

Seleção de documentários sobre o samba e sambistas: Bezerra da Silva, Cartola, Geraldo Pereira, Heitor dos Prazeres, Jards Macalé, João da Baiana, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Paulinho da Viola,  Pixinguinha, Saravah, Os avôs do samba, Partideiros, Partido alto.

BEZERRA DA SILVA (Cantor, compositor e instrumentista)

Onde a coruja dorme: O cantor Bezerra da Silva tornou-se uma estrela nacional nos anos 80 durante a chamada “explosão do pagode”. Classificado inicialmente pela crítica como “sambandido”, sua música encantou o público brasileiro com crônicas cáusticas e extremamente bem humoradas sobre o cotidiano das favelas cariocas e da Baixada Fluminense. Poucos sabem o segredo do sucesso de Bezerra da Silva: sua equipe de compositores – pedreiros, trocadores de ônibus, carteiros, técnicos de refrigeração e biscateiros em geral. Sambistas genuínos escolhidos a dedo por Bezerra. Trabalhadores anônimos que cantam como ninguém o universo da malandragem carioca.

 

CARTOLA (Compositor, cantor e violonista)

Cartola – Música para os olhos: A história do samba segundo um dos seus expoentes mais nobres. Utilizando linguagem fragmentada, o filme descreve um painel da formação cultural do Brasil.

 

GERALDO PEREIRA (Compositor e cantor)

Geraldo Pereira, o rei do samba: É um filme musical que retrata parte da vida e da obra do compositor, cantor, ator, malandro e sambista Geraldo Pereira. Amigo de Cartola, o juiz-forano criou o samba sincopado, que influenciaria a bossa-nova anos mais tarde. Uma de suas mais conhecidas composições é “Falsa Baiana”, gravada por Gal Costa. Outros sambas importantes de sua autoria são: “Acertei no milhar”, “Escurinha”, “Sem compromisso”, “Pisei num despacho” e “Bolinha de Papel”.

 

HEITOR DOS PRAZERES (Compositor, instrumentista e artista plástico)

Heitor dos Prazeres: Memórias do sambista popular e pintor naif Heitor dos Prazeres em seu atelier na Cidade Nova, bairro decadente do Rio de Janeiro. No fim da vida, Heitor sobrevivia de seus sambas, seus quadros e suas recordações.

 

JARDS MACALÉ (Compositor, cantor, violonista, arranjador, produtor musical e ator)

Jards Macalé, um morcego na porta principal: Uma luz sobre a trajetória nada linear deste artista contestador e personagem controverso da cultura brasileira nas últimas quatro décadas. Autor de Vapor barato e Movimento dos barcos, violonista, arranjador, ator e autor de trilhas de Nelson Pereira dos Santos, amigo pessoal de Lygia Clark e Hélio Oiticica.

 

JOÃO DA BAIANA (Compositor e pandeirista)

Conversa de botequim: João da Baiana é o personagem principal deste documentário, mostrado em sua intimidade, lembrando as origens do samba, as perseguições e os preconceitos sofridos no passado. Participação especial de Donga e Pixinguinha.

 

NELSON CAVAQUINHO (Compositor, cantor e instrumentista)

Nelson Cavaquinho: Nelson em sua casa, no bar, na vizinhança, cantando e dedilhando o violão; Hirszman captou o compositor na sua rotina simples de poeta do povo. Um retrato afetivo para ser apreciado pelos fãs da música brasileira.

 

NOEL ROSA (Compositor, cantor e violonista)

Noel Rosa o poeta da vila: A trajetória de Noel Rosa, um dos maiores compositores da história da MPB, que trocou a faculdade de Medicina pelo samba e pela boemia carioca, na década de 20, tornando-se ídolo do rádio, aos 19 anos, com o enorme sucesso alcançado com a canção Com Que Roupa. O filme acompanha não apenas a carreira musical de Noel, como também sua vida afetiva que, até morrer prematuramente de tuberculose, dividiu-se entre dois grandes amores: Lindaura, jovem operária com quem se casou, e Ceci, dançarina com quem manteve um caso tempestuoso.

 

PAULINHO DA VIOLA (Compositor, cantor e instrumentista)

Paulinho da Viola – meu tempo é hoje: O cantor, compositor e instrumentista Paulinho da Viola apresenta seus mestres e amigos, suas influências musicais e percorre sua rotina peculiar e discreta, apresentando hábitos e costumes desconhecidos do grande público.

 

PIXINGUINHA (Instrumentista, compositor, orquestrador e maestro)

Pixinguinha e a Velha Guarda do samba: Em abril de 1954, nos festejos do 4º Centenário de São Paulo, Thomaz Farkas filmou uma apresentação de Pixinguinha com a Velha Guarda do samba. O filme recupera esse material perdido por cinquenta anos.

Pixinguinha: Depoimento intimista. O compositor fala de sua iniciação musical, dos velhos amigos e de seu ambiente caseiro – o piano, as partituras, os remédios. Na varanda, os cascos de bebidas vazios, resultado de reuniões com amigos. Começou no cavaquinho, tocou flauta e saxofone. Os antigos sucessos são relembrados no saxofone que Paulo Bittencourt lhe deu de presente. Pixinguinha toca Carinhoso.

OUTROS DOCUMENTÁRIOS SOBRE O SAMBA E SAMBISTAS

Saravah: Em fevereiro de 1969 o diretor de cinema francês Pierre Barouh desembarcou no Rio de Janeiro disposto a registrar em película momentos de uma música que, embora conhecesse pouco, o fascinava intensamente. O olhar do estrangeiro, de coração aberto para a música brasileira, capturou imagens que durante 36 anos permaneceram desconhecidas no país. Aqueles momentos registrados viraram o documentário Saravah, resultado das sessões de filmagem de Barouh com os ancestrais Pixinguinha e João da Baiana, então octogenários, os jovens Maria Bethânia (aos 21 anos) e Paulinho da Viola, tendo Baden Powell como elo de ligação entre gerações tão distantes e fundamentais da arte brasileira. Interessado nas intervenções culturais e religiosas da presença da África no Brasil, Barouh entrevista João da Baiana que, acompanhado por Baden ao violão, sapateia e toca prato e faca, enquanto entoa “Okekerê”, de sua autoria, e “Yaô”, de Pixinguinha. Um momento em que a história atemporal do Brasil é materializada em imagens pelas lentes de Barouh.

 

Os avôs do samba: Documentário gravado em 1978 com depoimentos de Carlos Cachaça e sua esposa, Dona Menininha, Nélson Cavaquinho tocando bandolim, Adoniran Barbosa, Demônios da Garoa, Mano Décio, Cartola e Dona Zica.

 

Partideiros: Produzido em 1978, o documentário “Partideiros” reúne os grandes compositores do partido alto na década de 1970. Entre eles, Grupo Vissungo, Pandeirinho, Campolino, Casquinha, Argemiro, Osmar do Cavaco, Clementina de Jesus, Giovana, Xangô da Mangueira, Martinho da Vila, Geraldo Babão, Guará, Wilson Moreira e Aniceto. O roteiro de Nei Lopes, Rubem Confete e Clóvis Scarpino, agrupa depoimentos de ícones desse gênero, que surgiu no início do século XX ao longo do processo de modernização do samba urbano carioca. Como há discórdia entre estudiosos para definir o que realmente seria o partido alto, o curta-metragem percorre pelas memórias dos músicos ajudando a traçar a identidade dessa vertente. Guará dança o partido, da forma como aprendeu com o pai. Bucy Moreira relembra figuras como Pixinguinha, João da Baiana e Donga tocando na casa de sua avó, Tia Ciata. Ao som de pandeiro, flauta ou instrumento improvisado, Aniceto conta que esse estilo era o mesmo que a chula, música sem letra, feita somente do solo das instrumentações.

 

Partido alto: Com raízes na batucada baiana, o partido alto é uma forma livre de expressão e comunicação imediata, com versos simples e improvisados, de acordo com a inspiração de cada um. Uma forma de comunhão, reunindo sambistas em qualquer lugar e hora pelo simples prazer de se divertir.

 

Mais sobre música:

:: Música tradicional – folguedos e danças populares: o nosso patrimônio imaterial. Acesse AQUI!
:: Patrimônio cultural imaterial brasileiro. Acesse AQUI!
:: Pixinguinha – o mestre do Catumbi. Acesse AQUI!

Fonte: http://www.revistaprosaversoearte.com/15-documentarios-sobre-o-samba-para-assistir-e-estudar/

Projeto “Afrofuturismo – Griô Urbano” – Memória Audiovisual

O Projeto “Afrofuturismo – Griô Urbano” faz parte da Memória Audiovisual do CEACA, referente ao ano de 2009. É o resultado de um trabalho de pesquisa e investigação, intervenção urbana e apresentação audiovisual que tem como foco a história da cultura afro-brasileira na formação da identidade nacional.

“Esta atividade integra o Prêmio Interações Estéticas Residências Artísticas em Pontos de Cultura” e foi publicado no Youtube em 14 de out de 2015.

 

Direção: Daniel Lima

Concepção e Realização: Daniel Lima, Daniela Biancardi

Griô Urbano: Mestre Alcides de Lima

Ponto de Cultura Amorim Rima / CEACA:
Mestre Alcides de Lima
Mestre Dorival dos Santos

Mestre Durval do Côco
Adelvan de Lima (Esquilo)
Fabio Rocha (Soneca)
Herinque Rocha (Sonequinha)
Rodrigo Martins (Pança)
Tomás Pimentel (Tomate)
Direção Musical:
João Nascimento

Participação Musical:
Eliane do Côco
Diana Tatit
Tati Tatit
Katiane Mattge
Athaíde Camará (Marcha Lenta)

 

Participação Especial:
Alfredo Zito
Athaíde Camará (Marcha Lenta)
CM Durval (Jabá)
Diana Tatit
Eliane do Côco
Emerson Marinheiro (Lagarto)
João Nascimento
Katiane Mattge
Mário Salles (Gaúcho)
Tati Tatit
Roberta Estrela D’Alva
Majoi Gongora
Paulinho Baraúna

Apoio:
CEU Butantã
EMEF Desembargador Amorim Lima
Política do Impossível – PI

Fonte: Youtube

Projeto “Afrofuturismo – Olho do Berimbau” – Memória Audiovisual 2009

O Projeto “Afrofuturismo – Olho do Berimbau” é o resultado de um trabalho de pesquisa e investigação, intervenção urbana e apresentação audiovisual que tem como foco a história da cultura afro-brasileira na formação da identidade nacional.

“Esta atividade integra o Prêmio Interações Estéticas Residências Artísticas em Pontos de Cultura” e foi publicado no Youtube em 14 de out de 2015.

 

Direção: Daniel Lima

Concepção e Realização: Daniel Lima, Daniela Biancardi

Griô Urbano: Mestre Alcides de Lima

Ponto de Cultura Amorim Rima / CEACA:
Mestre Alcides de Lima
Mestre Dorival dos Santos
Mestre Durval do Côco
Adelvan de Lima (Esquilo)
Fabio Rocha (Soneca)
Herinque Rocha (Sonequinha)
Rodrigo Martins (Pança)
Tomás Pimentel (Tomate)
Direção Musical:
João Nascimento

Participação Musical:
Eliane do Côco
Diana Tatit
Tati Tatit
Katiane Mattge
Athaíde Camará (Marcha Lenta)

Assistente de Direção e Produção: Daniela Biancardi

Gravação: Estúdio 185

Técnico de Som: Lidenberg Farias e Beto Mendonça

Participação Especial:
Alfredo Zito
Athaíde Camará (Marcha Lenta)
CM Durval (Jabá)
Diana Tatit
Eliane do Côco
Emerson Marinheiro (Lagarto)
João Nascimento
Katiane Mattge
Mário Salles (Gaúcho)
Tati Tatit
Roberta Estrela D’Alva
Majoi Gongora
Paulinho Baraúna

Edição: Daniel Lima

Câmeras:
Daniel Lima
Eduardo Barros
Carol Misorelli
Daniel Prado
Eduardo Consoni
Evelyn Cristina
Fabio Rocha

Som Direto:
Camila Siqueira
Ben Charles

Produção Executiva: Carolina Barboza

Alunos:
Ana Carolina da Silva Oliveira
Ariane Luna Barbosa
Bianca Arguelho de Souza
Charles Alves de Almeida
Cristhian Campos Oliveira
Gabriela Barros
Giovanna Appel
Graziela Nascimento Tavares
Igor Alves de Souza
Igor Leme dos Santos
Isabela Appel
Jeffrey Pereira Tobias
João Victor Pereira Franca
Kamixa Pereira Tobias
Karla Karoline Torotrelli
Kayth Cristina Pereira
Ketelheen da Silva
Luan Lira Vieira
Lucas Pereira Tobias
Luciana Costa Alves
Luis Felipe Leme dos Santos
Marcos Paulo Barros
Matheus Pereira Tobias
Mayara dos Santos Oliveira
Nayara Novaes dos Santos
Ramon Ferreira de Oliveira Paiva
Rogerio Luna Barbosa
Tarsila Roque de Lima Pereira
Ynaê Oliveira Bomfim

Agradecimentos:
Ana Elisa Siqueira
As Rutes
Camila Siqueira
Eduardo Barros
Eduardo Benaim
Elisabeth de Lima
Equipe do CEU Butantã
Equipe do Museu da Pessoa
Flavinha (TV Brasil)
Floriana Breyer
Frente 3 de Fevereiro
Leandro Saraiva
Marilia Alvarez e Miguel Salvador
Pais e Mestres da EMEF Desembargador Amorim Lima

Apoio:
CEU Butantã
EMEF Desembargador Amorim Lima
Política do Impossível – PI

Fonte: Youtube

Participação dos mestres e professores do CEACA na I Formação Continuada de Capoeira 2016 -CEPEUSP

formaçãoceupeusp2016

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A  convite do generoso professor de capoeira Womualy e do CEPEUSP os mestres e professores do CEACA participam da I Formação Continuada de Capoeira 2016.

Ajudando a construir uma capoeira forte e amiga.

Só é possível com afetividade e humildade daqueles que a transmitem.

Parabéns a todos os capoeiristas presentes

.

AXÈ.

Toré por Mestre Alcides de Lima. “Eu aprendi…agora vou ensinar.”

                                                                                                                                                

 

                                                                                                                                                “Resistência Ancestral”

Descolonizando nossas almas, debate acadêmico

A proposta deste texto é de um diálogo entre os saberes acadêmicos e os orais; entre os saberes tradicionais e os eruditos; é uma iniciativa para se pensar a descolonização das nossas almas. Foi proposto e escrito de maneira partilhada por um Mestre da tradição oral, Alcides de Lima Tserewaptu, e por uma jovem pesquisadora, Roberta Navas. Buscamos refletir brevemente sobre as condições dos afrodescendentes no contexto brasileiro, com base em uma abordagem epistemológica – que perpassa por perspectivas históricas, educacionais, sociais e culturais.
Nos conhecemos em dezembro de 2012, no interior das vivências do curso de extensão (1), ministrado por mestres da cultura oral, professores e pesquisadores acadêmicos, intitulado Pedagogia Griô e Produção Partilhada do Conhecimento (FFLCH – USP), no qual experimentamos, conhecemos e refletimos sobre propostas e novas abordagens conceituais do universo das culturais orais do Brasil e das possibilidades de uma maior socialização destes saberes no âmbito do ensino em geral. É mais que sabido que a oralidade percorre quase todos os espaços da cultura letrada, ou seja, é base para a transmissão de conhecimento, mas foi continuamente posta à prova e não-legitimada em ambientes institucionais, tais como a Universidade.
Em sociedades orais, “se reconhece a fala não apenas como um meio de comunicação diária, mas também como um meio de preservação da sabedoria dos ancestrais, veneradas no que poderíamos chamar elocuções-chave, isto é, tradição oral”. Neste sentido, o conceito de tradição oral pode ser definido como “de fato, um testemunho transmitido verbalmente de uma geração para outra” (VANSINA, 2010). No continente africano, em determinadas regiões como a do Mali, as figuras que representavam esta transmissão eram os mestres da tradição oral e griots, que podem ser divididos em griots músicos, griots embaixadores, griots  louvadores e genealogistas.
Para nós, o termo griô simboliza uma forte expressão tanto da valorização dos saberes orais oriundos dos recônditos rurais e das cidades do Brasil, quanto da valorização do encontro entre a brasilidade e o mundo diverso que a compôs. Assim, o saber do griô está calcado na tradição oral, aqui definida por um saber que é transmitido de geração em geração, e que reinaugura a cada novo nascimento a reprodução de si própria, e do contato com o outro.
De acordo com Mestre Alcides, os griôs e mestres da tradição oral “são todos aqueles e aquelas que detêm um saber que vem sendo transmitido por várias gerações, secular ou milenar através da oralidade, e se reconhece e é reconhecido/a por sua comunidade”. Ou seja, a construção se materializa por meio das histórias do seu povo no interior da rede de histórias das comunidades. Nesse universo, não podemos enfatizar uma etnia ou uma cultura específicas, pois as suas singularidades só adquiriram importância na diversidade do diálogo com outras culturas.
Por um lado, a sabedoria do griô reconhece que sua existência só foi possível em consequência dos antepassados que a constituíram, por meio de um movimento dinâmico de culturas em contínua formação – que chegaram no Brasil e têm construído seus modos de transmissão pela oralidade e seu caminho de entregar ao universo de sua comunidade.  Por outro, o saber do griô é uma forma de definirmos o que pode ser familiar, e é por meio das histórias dos mestres que os objetos da cultura adquirem vibração. Tambores, redes, tapetes, vasilhas, muzuás, artesanatos etc., adquirem vida graças às histórias (re)contadas pelos Mestres. Este saber oral tem seu grande fundamento na intenção de compartilhar vivências, que podem estar inscritas nos rituais religiosos, nas danças, na capoeira (BAIRON, 2012).
Nas sociedades tradicionais seculares e/ou milenares do continente africano, as culturas não são constituídas sob divisões, ou seja, em partes: elas são um todo. Já em sociedades ocidentais, a constituição cultural se dá de maneira mais desconectada. Acreditamos que no contexto ocidental, isso possa ter ocorrido devido a reelaboração e junção das diferentes culturas. Até um certo ponto, por necessidade; por outro lado, por ser uma estratégia das culturas “dominantes” para um melhor e maior controle, pois no acontecer dessa divisão, ocorre uma disputa para que se legitime qual delas é a mais qualificada, a mais “original”: a verdadeira.
Podemos citar como exemplo, o que aconteceu com duas grandes maltas de capoeira na cidade do Rio de Janeiro no final do século XIX, Guaiamuns e Nagôas. A primeira se dizia originalmente brasileira e defendia o partido republicano, a segunda se dizia originalmente africana e defendia o movimento monarquista.
As culturas tradicionais são construídas, elaboradas, atualizadas e transmitidas por suas comunidades, não tendo dono. Já o que vemos na contemporaneidade é a apropriação das culturas tradicionais por parte dos grupos dominantes, atendendo exatamente a proposta destes grupos, pois desarticulam a força da cultura no seu sentido de resistência social. Isso também se aplica à capoeira, uma vez que na discussão acerca da capoeira angola (mãe) – africana, negra; e a capoeira regional, brasileira, branca é necessário reconhecer que no passado, não existiam essas duas nomenclaturas, era somente capoeira. Se pegarmos a etimologia da palavra capoeira, esta não abriga em seu nome a origem africana, mas sim indígena, kaá-pu‘era, (Tupi) – o mato ralo ou cortado.
O que buscamos com a descolonização das nossas almas? O encontro para o reconhecimento, para o diálogo, para o respeito unido a um orgulho incondicional da nossa formação cultural, que abriga suas diversidades nas raízes indígenas, africanas, europeias. Por outro lado, nesta descolonização deve haver espaço para uma ressignificação da historicidade, na qual se discuta o processo genocida de colonização, que ainda persiste em determinar os valores dos saberes e, por consequência, os valores das nossas vidas.

Alcides de LimaMestre Alcides Tserewaptu – Mestre de capoeira e de tradição oral, licenciado pleno em Educação Física e Pedagogia, com especialização em Educação Física Infantil e Ginástica de Manutenção.

Roberta Navas Battistella Relações Públicas, colaboradora da Escola de Governo e mestranda do programa de pós-graduação interdisciplinar Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pela FFLCH – USP.

Nota

(1) Apresentação audiovisual do curso disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8h_fALXNcWI Notícia publicada no portal UNIVESP sobre o curso disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4_hmdlBKWP8 . Acesso em: 13.07.2015.

Bibliografia

BAIRON, Sérgio. Livre docente da USP fala sobre a Lei Griô. 2012. Disponível em: http://www.acaogrio.org.br/blog/2012/11/13/sergio-bairon-livre-docente-da-usp-fala-sobre-a-lei-grio/ . Acesso em: 14.06.2015.

BAIRON, Sérgio, BATTISTELLA, Roberta N., LAZANEO, Caio. Fundamentos da produção partilhada do conhecimento e o saber do Mestre Griô. Revista Diversitas, n. 3. USP, São Paulo: 2015, pp. 247-265.

CEACA – CENTRO DE ESTUDOS E APLICAÇÃO DA CAPOEIRA. Capoeira & Educação: coletânea de estudos e práticas. / Mestre Alcides de Lima (Org.). São Paulo: CEACA, 2013.

COSTA, A. C. F. ; LIMA, M. A. . Entrevista com Mestre Alcides de Lima. Revista Diversitas, v. 2, p. 385-396, 2014.

HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO, J. (coord.) Metodologia e Pré-História da África, História Geral da África. Brasília: Unesco, 2010. v.1. p.193.

LIMA, Alcides D. Capoeira & Educação: Coletânea de Estudos e Práticas. São Paulo:  CEACA, 2013.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Negregada Instituição: os capoeiras na Corte Imperial 1808-1850,  Unicamp, 1993.

VANSINA, Jan. A tradição oral e sua metodologia. In: KI-ZERBO, J.(coord.) Metodologia e Pré-História da África, História Geral da África. Brasília: UNESCO, 2010.

Fonte: http://www.unesp.br/portal#!/debate-academico/descolonizando-nossas-almas/, publicado em 15/07/2015, site UNESP.

Mesa Redonda: Tradição Oral e Cultura Popular

Mesa Redonda: Tradição Oral e Cultura Popular.