Eu e minha ancestralidade: o encontro de saberes

Novo texto publicado na Revista Observatório Itaú Cultural descreve a trajetória do Mestre Alcides de Lima Tserewaptu, em sua vida pessoal e em sua relação com a ancestralidade iniciada no Catupé Cacundê, em continuidade com a capoeira. Fala também da transmissão desses saberes por meio da tradição oral e do diálogo com a educação formal. Essas práticas fortalecem a continuação da ancestralidade ao formar cidadãos capazes de multiplicá-las, fator hoje em dia muito importante para a preservação da nossa cultura. Em defesa da memória e cultura de seu povo, diz o Mestre:

A ancestralidade não é desvinculada do corpo; aliás, este é um elemento muito importante para expressá-la. Podemos, então, considerar que o corpo também é o lugar dela, sendo o principal instrumento de resistência das práticas de tradições orais. Consideramos a possibilidade de levar na memória e em nosso próprio corpo determinado inventário e de tornar a prática como presença, como certa matriz a continuar a tradição.

Por meio da cultura ele realiza dois movimentos em busca dessas ancestralidades: participa de pesquisas para colher relatos e material sobre o Jongo em diversos estados brasileiros e, desde 2000, ensina capoeira e cultura afro-brasileira no Amorim Lima, escola municipal, situada no Butantã (São Paulo), com base em projeto desenvolvido ao longo de várias décadas trabalhando com os valores da “ancestralidade” e da “tradição oral” ; a escola adotou projeto pedagógico inspirado em uma metodologia criada em escolas portuguesas, como a Escola da Ponte. Essa metodologia integra atividades em espaços sem paredes, sem regência de aulas por disciplina específica e com a participação ativa dos estudantes mais avançados em auxílio aos iniciantes. O trabalho do mestre aproxima-se daquele realizado por etnólogos, uma vez que, ao encontrar grupos resilientes, ele registra e insere esses conhecimentos no trabalho feito sobre a cultura e as religiosidades africanas, e ensina a jovens e crianças o valor ético e moral dessa cultura que, pelo jogo, fortalece corpo e mente em oposição ao racismo e em defesa da solidariedade e do amor pela arte que liberta.

Leia o Artigo na íntegra, clicando no link ou na imagem:

ALCIDES DE LIMA TSEREWAPTU. Eu e minha ancestralidade: o encontro de saberes. In: Revista Observatório Itaú Cultural, n. 22 (maio/nov. 2017). São Paulo: Itaú Cultural, 2017, p. 153-163.

Revista Observatório Itaú Cultural, n. 22 (maio/nov. 2017)

 

 

 

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Os cuidados que devemos considerar quando se propõe a retirada da capoeira da matriz africana.

Nas andanças que o Ponto de Cultura promove temos a feliz oportunidade de conhecer e conversar com diversas pessoas dos mais variados pontos de vista, o que engrandece o nosso conhecimento e nos faz pensar nos conflitos surgidos entre diferentes cabeças. Num destes encontros, no caso o da Teia em Fortaleza, CE, abril de 2010, surgiu uma polêmica entre os grupos de discussão: a de se formar um grupo de trabalho (GT) de capoeira, desvinculando a mesma do GT de Matriz Africana na qual atualmente está inserida, assim como outras manifestações, o jongo, os terreiros etc.

Pensamos que tal iniciativa deva ser extremamente cautelosa, pois se consideramos a capoeira em especial, abrimos precedentes para um GT a cada uma das manifestações existentes dentro do GT Matriz Africana o que desarticularia o grupo e os objetivos dos GTs, e pensando além, o que não impediria de no futuro termos outros GTs dentro destas manifestações tais como GT berimbau, GT toques e afins, o que a nosso ver, além da desarticulação, os próprios tendem a não se reconhecerem mais como uma entidade única.

Quando consideramos aparentemente tão diversas manifestações dentro da Matriz Africana reconhecemos que elas têm uma ancestralidade em comum, preceitos e objetivos parecidos, o que nos faz pensar em uma irmandade.

Então, se levarmos a capoeira a um grupo diferenciado, atrevemos a apontar uma tendência à esportivização, eminência provável aos jogos olímpicos, com a organização de associações, federações estaduais, confederação nacional e internacional, órgãos que existem; porém não há hegemônica aderência. Justamente em razão de muitos mestres não enfatizarem a capoeira como esporte, mas como cultura. Ora, se assim ocorresse, teríamos na capoeira uma visibilidade mundial diferente, com personagens escolhidos (atletas), marketing esportivos, patrocínios e teríamos no final não mais uma manifestação cultural, mas sim um produto.

Efetivamente, não é isso o que se propõem os mestres e participantes dos pontos de cultura e as discussões que ocorrem nos encontros; são anos de luta para considerarem não só a capoeira, mas as manifestações populares como representantes e significativas do povo brasileiro nas mais diversas instâncias.

Sendo ela Patrimônio Cultural Imaterial, devido as suas especificidades no modo de fazer e transmitir que a princípio podemos dizer de uma luta de defesa, afirmação de identidade de um povo, representando a “rebeldia” de um sistema opressor que não oferecia e tão pouco oferece favorecimentos sociais. Já que desde sempre é dada alguma importância às manifestações populares pelo sistema apenas quando estas se prestam a alguma utilidade para ele.

Vamos pensar por que a capoeira está inserida na matriz africana:

Basta pensar na origem da capoeira, mesmo sendo ela uma invenção nacional, ob­servemos e relacionemos os elementos que a compõem: o berimbau, a oralidade, as cantigas em louvações, típicas de povos africanos como os Mali desde o século IX, o respeito à palavra dita que não é esquecida, a hierarquia do mestre ao aprendiz são fundamentos recorrentes da capoeira. Retirá-la da matriz africana seria como extirpar um pedaço do DNA da capoeira, deixando assim de ser a capoeira, apagando a sua ancestralidade. Aqui, como na capoeira, não existe disputa de um contra o outro, mas um com o outro; no en­riquecer humano, o troféu não é metal precioso, mas desenvolvimento humano; levanta­mos aspectos que consideramos importantes para justificá-la na matriz africana.

Então no nosso entendimento não existe um meio de desvincular, esquecer todo um passado que é recontado e marcado no corpo do capoeirista como foi dito acima; para tal teríamos que reinventar outra luta com outras pessoas, com outros objetivos, novas músi­cas, novos toques, e outra forma de entender o mundo.

Quando fiz graduação do curso de Educação Física no início dos anos 1980, fui con­vidado a participar de um seminário organizado por alguns professores da mesma, e ha­via um módulo cujo tema era: “A importância dos movimentos da capoeira na formação física do desportista”; na época, já capoeirista, fui advertido pelo professor organizador do seminário que o mais importante que a capoeira tinha para esse seminário seria a parte de movimentos físicos, a plástica, a ginga, a dança, movimentos acrobáticos, e de forma al­guma, sua história e sua cultura, pensamento existente até hoje em alguns grupos ligados à educação física, ou por ingenuidade ou por proteção de mercado.

Como a capoeira não se define com uma, duas ou três palavras ou frases, ela está na dança, no jogo e na luta, pode ser inserida na literatura, na história, na geografia, da matemática às artes, tem um grande mercado de trabalho na área da educação, sendo argumento para profissionais da área da educação com formação superior, mas também não podemos esquecer-nos dos nossos mestres do saber popular que há muito vêm dedicando e transmitindo seus conhecimentos em todos os campos do saber; temos aí esse reconhecimento pelo MinC através da Ação Griô da Tradição Oral, um edital muito concorrido e agora com o Projeto de Lei e já lançado em audiência pública em várias cidades do Brasil que buscará dar maior reconhecimento aos mestres.

Capoeira brasileira, dança-luta que foi criada e desenvolvida pelos negros escravizados, ligada diretamente à vida socioeconômica, histórica e política do país. Expressão corporal de uma injustiça social cantada e contada no tambor e nas vozes dos mestres, musicalidade que se insere de forma peculiar na história do povo brasileiro, desde o início do século XVII até a atualidade, um mau hábito que cresceu e fecundou em favor da vida.

Seus movimentos dão flexibilidade tanto muscular como articular, tonificam os músculos, sua aprendizagem baseada na oralidade e observação torna a mente atenta aos detalhes, insistente em aprimorar o jogo e superar dificuldades, as conquistas são percebidas em cada roda de capoeira, concebendo um novo olhar às potencialidades.

Hoje, a capoeira pertence a outro contexto, inserida nas artes em geral como a dança, o cinema, a música, as artes plásticas e também em todos os níveis escolares, desde objeto de estudo a conteúdo curricular, fora do país é um identificador cultural do Brasil.

Não restringir a prática a somente uma luta corporal, mas considerar que a sua existên­cia está vinculada a quase toda história do povo brasileiro é respeitar os homens, mulheres e crianças que fazem esta história, a cultura do Brasil.

 

Ms. Alcides e Kati

Alcides de Lima e Katiane Mattge

Fonte: CEACA – CENTRO DE ESTUDOS E APLICAÇÃO DA CAPOEIRA. Capoeira & Educação: coletânea de estudos e práticas. / Mestre Alcides de Lima (Org.). São Paulo: CEACA, 2013, p. 37 e 38. ISBN: 978-85-66647-00-6. Baixe Livro Completo:

https://drive.google.com/file/d/0B8JVCyw9taFscE1mVWphbFJaNlE/edit?usp=sharing

Lançamento do livro LDB da Educação

No dia 03 de junho (sábado), a partir das 15h30, aconteceu um grande encontro de educadores, autores e pesquisadores da educação na escola EMEF Desembargador Amorim Lima para participarem do lançamento do livro:

“Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacionalestudos em virtude dos 20 anos da Lei n. 9.394/1996″

Valeu a pena participar do evento, que contou com a participação dos amigos do CEACA: Mestre Alcides de Lima e Roberta Navas Battistella, que escreveram juntos um relato bem bacana que consta no livro.

Veja o vídeo de abertura com Mestre Alcides de Lima

Sobre os autores

 Mestre Alcides de Lima Tserewaptu nasceu em 1947, na cidade de Santa Rita da Estrela (MG). É conhecido e respeitado como mestre de capoeira e presidente do Ceaca. Atua como coordenador do Ponto de Cultura Amorim Rima/Ceaca e do projeto “Expresse-se com Consciência: Faça Capoeira”. Mestre Alcides também é representante nacional da Comissão de Griôs e Mestres da Tradição Oral da rede Ação Griô Nacional.

RobertaNavasBattistella Roberta Navas Battistella: Graduada em Comunicação Social (habilitação em Relações Públicas) pela Faculdade Cásper Líbero (2010), com experiência em comunicação e gestão de projetos em áreas de sustentabilidade, educação, comunicação e cultura. Em 2011 recebeu o Prêmio ABRP (Associação Brasileira de Relações Públicas), na Categoria Monografia de Graduação Responsabilidade Socioambiental e Sustentabilidade. Atualmente faz mestrado no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP; integrante do NEHO (Núcleo de estudos em História Oral), CEDIPP (Centro de Comunicação Digital e Pesquisa Partilhada) e CEACA (Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira).

Endereço:

Rua Professor Vicente Peixoto, 50 – Vila Indiana – São Paulo

Tel: (11) 3726-1119

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“Expresse-se com consciência: faça capoeira” – uma experiência de diálogo entre educação escolar e culturas de tradição oral

Mestre Alcides de Lima Tserewaptu

Ana Carolina Francischette da Costa

 

Neste artigo, o mestre de capoeira Alcides de Lima Tserewaptu e a capoeirista e historiadora Ana Carolina Francischette da Costa relatam a experiência do Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira (Ceaca), que traça um diálogo entre educação escolar e culturas de tradição oral, especialmente as de matriz afro-indígena. Desde 2000, o Ceaca desenvolve o projeto Expresse-se com Consciência: Faça Capoeira, que trabalha elementos da cultura popular brasileira, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, em São Paulo (SP).

O projeto faz parte do currículo e do projeto pedagógico da escola, e é aplicado nas turmas do 1º ano do Ensino Fundamental, além de atender à comunidade, em oficinas semanais realizadas no período noturno, contribuindo para a formação de centenas de crianças, adolescentes e adultos. As ações do grupo visam estabelecer um diálogo entre a cultura popular oral e a cultura formal, tendo como fio condutor a capoeira, o coco, a ciranda, o samba de roda, o samba duro, a puxada de rede da pesca do xaréu, o toré, o cordel e toda musicalidade e oralidade envolvidas nessas manifestações culturais.

Em suas oficinas, o Ceaca busca associar as culturas de matrizes indígenas e africanas, historicamente silenciadas, valorizando sua história, seus conhecimentos e suas manifestações, pilares da formação social de nosso povo. Trazer esses saberes para a instituição escolar possibilita a ressignificação desse espaço. Ao promover o encantamento da aprendizagem, a valorização e a afirmação da diversidade cultural, o grupo fomenta a descolonização do currículo, a construção de relações ético-raciais positivas, o fortalecimento da ancestralidade, a valorização da experiência de vida, o fortalecimento da autoestima de alunos e alunas, de suas famílias, bem como dos mestres de tradição oral.

Em 2005, por meio de um edital do Ministério da Cultura, o grupo tornou-se o Ponto de Cultura Amorim Rima/Ceaca; em 2006 e 2007, o programa foi selecionado pelo projeto Ação Griô Nacional, da tradição oral, e contemplado com o Prêmio Escola Viva, do Ministério da Cultura.

Clique no link para baixar o Arquivo na Íntegra (pdf)http://www.plataformadoletramento.org.br/arquivo_upload/2016-11/20161121112323-expresse-se-com-consciencia-faca-capoeira-artigo-mestre-alcides.pdf

Sobre os autores

Mestre Alcides de Lima Tserewaptu nasceu em 1947, na cidade de Santa Rita da Estrela (MG). É conhecido e respeitado como mestre de capoeira do Ceaca. Atua como coordenador do Ponto de Cultura Amorim Rima/Ceaca e do projeto “Expresse-se com Consciência: Faça Capoeira”. Mestre Alcides também é representante nacional da Comissão de Griôs e Mestres da Tradição Oral da rede Ação Griô Nacional.

Ana Carolina Francischette da Costa é capoeirista integrante do Ceaca, aluna de Mestre Alcides. Professora de História, historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo. Atua em pesquisas sobre comunidades remanescentes de quilombos e outras comunidades tradicionais com base na história oral; além estudar a relação entre tradição oral e educação formal.

 

Fonte: http://www.plataformadoletramento.org.br/acervo-para-aprofundar/1146/expresse-se-com-consciencia-faca-capoeira.html